Milho em Santa Catarina: quando o frete pesa mais que o próprio grão
O milho em Santa Catarina ajuda a explicar um desafio econômico que começa no campo, passa pelas rodovias e chega ao preço de produtos presentes diariamente na mesa das famílias.
O estado precisa de aproximadamente 8,5 milhões de toneladas do grão por ano, principalmente para abastecer as cadeias de aves, suínos, leite e ovos. Contudo, a produção catarinense está longe de atender toda essa demanda.
Na safra 2025/2026, foram produzidas cerca de 2,67 milhões de toneladas, segundo dados do Observatório Agro Catarinense citados pelo economista e analista de mercado da Orsitec, João Victor da Silva. Isso deixa uma necessidade próxima de 6 milhões de toneladas, suprida por outras regiões brasileiras e pelo exterior.
O problema, portanto, não termina em encontrar milho disponível. É preciso fazer esse milho chegar às agroindústrias catarinenses por um custo que preserve a competitividade das cadeias produtivas.
E é aí que a distância entra na conta.
Por que Santa Catarina precisa comprar milho de outras regiões?
Santa Catarina possui uma agroindústria de grande demanda por milho. O grão funciona como insumo para cadeias produtivas relevantes no estado, especialmente na alimentação animal.
A produção local, porém, atende somente parte dessa necessidade. Por isso, milhões de toneladas precisam percorrer outras rotas até chegar às empresas catarinenses.
Parte significativa vem do Centro-Oeste e percorre mais de mil quilômetros. Dependendo da origem, do destino e das condições logísticas, o transporte se torna uma parcela expressiva do custo total.
Em alguns casos analisados no material de João Victor, o frete chega a custar mais que o próprio milho.
É uma situação que ajuda a mostrar por que competitividade não depende somente do preço de produção de uma mercadoria.
Milho em Santa Catarina: por que a distância custa tanto?
Na economia, existe um conceito que ajuda a entender essa situação: custo de transação.
Nesse contexto, ele representa despesas que surgem para fazer o produto chegar de uma ponta a outra da cadeia. Entram nessa conta transporte, armazenagem, tempo e dificuldades operacionais.
Imagine duas cargas de milho com exatamente o mesmo preço na origem.
A primeira precisa percorrer uma distância relativamente curta por uma estrutura logística eficiente. A segunda atravessa mais de mil quilômetros, depende de diferentes operações e leva mais tempo até chegar ao comprador.
O preço do milho pode ser idêntico. O custo efetivo para quem compra, não.
Por isso, analisar somente o valor da tonelada na origem oferece uma visão incompleta.
O frete também chega à margem das empresas
Esse custo não desaparece quando o caminhão chega ao destino.
Ele entra na estrutura econômica da cadeia produtiva. No caso catarinense, pode afetar empresas ligadas à produção de aves, suínos, leite e ovos.
João Victor usa uma comparação interessante: esse custo funciona como uma espécie de “imposto que ninguém votou”. Ele não aparece discriminado dessa forma na nota fiscal entregue ao consumidor, mas integra o custo dos alimentos e pressiona as margens dos produtores.
Assim, discutir estradas e rotas de abastecimento também significa discutir competitividade empresarial.
Milho em Santa Catarina: o Paraguai pode encurtar esse caminho?
É nesse cenário que o Paraguai ganha espaço na discussão.
As áreas produtoras paraguaias estão geograficamente mais próximas da fronteira catarinense do que grandes fornecedores localizados no Centro-Oeste brasileiro. Portanto, a possibilidade de ampliar essa relação comercial chama atenção.
E ela já existe.
Em 2025, o milho representou 15,2% das importações catarinenses provenientes do Paraguai, com US$ 70,5 milhões movimentados. No total, Santa Catarina importou US$ 464 milhões em produtos paraguaios naquele ano.
Considerando também as exportações catarinenses para o país vizinho, o comércio entre os dois mercados movimentou US$ 909,1 milhões em 2025.
Portanto, a discussão sobre uma maior integração não começa do zero.
Uma rota menor significa milho mais barato?
Não necessariamente.
Esse é um dos pontos centrais para compreender a discussão sobre a chamada Rota do Milho.
Menor distância geográfica não significa automaticamente menor custo logístico.
Uma carga internacional precisa atravessar um sistema que envolve estradas, fronteiras, aduanas, exigências sanitárias e operações logísticas.
Se essas etapas forem lentas, imprevisíveis ou caras, parte da vantagem obtida pela proximidade pode desaparecer.
Por isso, a eficiência dessa relação depende da qualidade de todo o corredor logístico. Conforme a análise de João Victor, sem boas estradas, estruturas aduaneiras eficientes e protocolos sanitários previsíveis, uma rota menor no mapa ainda pode representar um trajeto caro na prática.
Os portos também entram na discussão sobre milho em Santa Catarina
A integração com o Paraguai não precisa funcionar em uma única direção.
O Paraguai não possui acesso direto ao mar. Para alcançar mercados internacionais por via marítima, portanto, depende da infraestrutura logística de países vizinhos.
Santa Catarina pode participar desse fluxo.
Os portos catarinenses podem servir como parte dessa conexão e, com isso, movimentar serviços de transporte, armazenagem, despacho aduaneiro, operação portuária e comércio exterior.
Isso muda um pouco a perspectiva.
Em vez de enxergar logística somente como o custo necessário para trazer milho até a agroindústria catarinense, o estado também pode observar sua infraestrutura como um ativo capaz de prestar serviços para cargas que circulam pela região.
Portonave é um exemplo. O terminal de Navegantes movimentou 1,1 milhão de TEUs em 2025 e desenvolve um plano de modernização de R$ 2 bilhões, com previsão de ampliação de capacidade.
O que tudo isso tem a ver com a competitividade das empresas?
Uma agroindústria não controla a distância entre Santa Catarina e as grandes regiões produtoras de milho.
Contudo, essa distância influencia seus custos.
É por isso que infraestrutura, logística e integração comercial importam para a gestão empresarial mesmo quando estão fora dos muros da empresa.
Uma mudança no custo do transporte pode interferir na aquisição de insumos. Um gargalo de infraestrutura pode aumentar prazos. Uma nova rota comercial pode alterar fornecedores disponíveis. Já uma operação mais eficiente pode reduzir custos ao longo da cadeia.
Para gestores, portanto, acompanhar essas mudanças ajuda a entender riscos e oportunidades que podem aparecer na estrutura de custos do negócio.
Isso também reforça uma ideia importante no planejamento: o resultado de uma empresa não depende somente das variáveis que ela controla internamente.
Uma rota mais curta resolve o problema do milho em Santa Catarina?
Sozinha, não.
A redução da distância pode ajudar, mas a competitividade depende do corredor logístico completo: origem do milho, transporte, fronteira, exigências sanitárias, armazenagem e chegada à agroindústria.
No sentido contrário, a mesma lógica vale para cargas paraguaias que poderiam utilizar a infraestrutura portuária catarinense.
Nesse cenário, o poder público tem papel na oferta de infraestrutura, capacidade aduaneira, segurança jurídica e condições sanitárias adequadas para o comércio. A eficiência econômica, porém, depende de como todo esse sistema funciona em conjunto.
Por isso, a pergunta relevante não é simplesmente se o milho deve vir do Centro-Oeste ou do Paraguai.
A questão é como Santa Catarina pode abastecer uma agroindústria que demanda aproximadamente 8,5 milhões de toneladas por ano com maior eficiência, previsibilidade e competitividade.
Perguntas frequentes sobre milho em Santa Catarina
Quanto milho Santa Catarina precisa por ano?
A necessidade estadual é de aproximadamente 8,5 milhões de toneladas anuais, principalmente para abastecer as cadeias de aves, suínos, leite e ovos.
Quanto milho Santa Catarina produz?
Na safra 2025/2026, a produção citada pelo Observatório Agro Catarinense foi de aproximadamente 2,67 milhões de toneladas. Isso deixa um déficit próximo de 6 milhões de toneladas.
De onde vem o milho utilizado em Santa Catarina?
Parte do déficit é suprida por outras regiões brasileiras, com participação relevante do Centro-Oeste, e outra parte vem do exterior. O Paraguai já participa do abastecimento catarinense.
Por que o Paraguai é considerado uma alternativa?
A proximidade entre regiões produtoras paraguaias e Santa Catarina pode reduzir distâncias em relação a fornecedores mais afastados. Contudo, a vantagem econômica depende de estradas, aduanas, protocolos sanitários e eficiência logística.
Os portos catarinenses podem participar dessa relação?
Sim. A integração pode funcionar também com cargas paraguaias utilizando a infraestrutura catarinense para acessar mercados marítimos, criando demanda para diferentes serviços logísticos e de comércio exterior.
Santa Catarina não consegue encurtar as distâncias no mapa. Pode, contudo, discutir como tornar essas distâncias economicamente menores e, para uma agroindústria que precisa buscar milhões de toneladas de milho todos os anos, essa diferença chega diretamente à conta da competitividade.
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